Na tagarelice com os “Fernandes”

O Luís Fernandes vive em Beja, quarentão (recente) é pai da Sara (Sarita, como carinhosamente lhe chama) há já 12 anos.
Da família da Sara também fazem parte um cão (na casa do pai) e um gato (na casa da mãe), além do contacto com animais, a Sara adora pessoas, jornalismo, música, dança, e haverá provavelmente no futuro dela algo brilhante num destes campos.
Os Fernandes são benfiquistas, e à português de gema gostam de cozido à portuguesa, arroz de pato e claro…frango assado, esqueci-me de perguntar ao Luís se é ele que faz o cozido à portuguesa ou o arroz de pato, o que até acredito ser possível, é que além de Pai da Sara, Psicólogo e autor de dois livro sobre Bullying (o mais recente, publicado em Outubro “Diz Não ao Bullying – Não deixes que te façam mal!”) o Luís é um homem que arranja sempre tempo para fazer o certo, para fazer o que lhe dá prazer e o que faz os outros felizes, mesmo que isso signifique vestir o avental e por o arroz de pato no forno.
Conheçam os Fernandes 🙂

Felicidade para a vossa família é…

Podermos estar juntos e sabermos que estamos sempre um para o outro, sempre, haja o que houver, aconteça o que acontecer, logo de manhã e no final do dia, estamos juntos. São todos aqueles pequenos (leia-se grandes) momentos como comermos uma torrada a meias, partida em 3 partes, sendo que a do meio é, desde sempre, “propriedade” da Sarita. É apreciarmos aqueles momentos especiais, únicos e tantas e tantas irrepetíveis como aconteceu quando, 3 anos após a morte da minha mãe (tinha a Sarita 4 anos) ela me perguntou, “Pai, a avó Júlia é amiga da Nossa Senhora de Fátima?” E eu, surpreendido, lhe perguntei, “Achas? Porque dizes isso?”, tendo ela respondido, “Pai, se estão as duas no Céu devem ser, não achas?”.

Quem são os Fernandes?

Somos muito parceiros, cúmplices nos olhares e brincadeiras (somos muito parecidos em termos de personalidade). Como se nota a nossa cumplicidade? Quando um começa a falar, o outro normalmente termina, “falamos” com o olhar, adoramos estar juntos e nesses momentos sentimos que o tempo eclipsa-se à velocidade da luz, boa disposição, muitos sorrisos e piadas são condições obrigatórias, entre abraços e beijinhos (sim, é um mito afirmarmos que os adolescentes não gostam de mimos… bem, se calhar ao pé dos amigos não são tão expansivos em manifestar os afetos), o nosso mote é viver com bom humor… o que nos causa mais tensão? Alguma preguiça da Sarita, principalmente nos estudos, embora os resultados sejam bons poderiam ser um pouco melhores (conversa de pai :P)

Se a vossa família tivesse um slogan, seria…?

Educar rima com mimar, partilhar… e amar, tremendamente!

Quais são as vossas principais tradições, hábitos ou rituais enquanto família?

Como qualquer família, sempre tivemos e continuamos a ter algumas tradições, hábitos ou rituais. Apesar de não viver com a Sarita (vive desde os 5 anos apenas com a mãe), todos os dias estamos juntos, fui sempre eu quem a levava para o infantário, à escola e esses pequenos minutos são sempre preciosos porque não imagino melhor maneira de começar-se o dia. Todos os fins de semana estamos juntos (não vivemos aquela situação impensável para mim de ser-se pai de 15 em 15 dias), a não ser que eu tenha algum trabalho fora de Beja e mesmo assim, em alguns momentos ela costuma acompanhar-me.

Que tipo de pai procuras ser para a tua filha?

Sempre tentei ser um pai muito próximo, presente em todos os momentos importantes da sua vida (desde contar histórias, em conjunto com ela, no infantário no Dia do Pai ou sempre que solicitado, brincar com ela todos os dias, ler-lhe uma, ou várias histórias ao deitar, entre milhões de outras coisas), mesmo que isso implicasse abdicar de determinadas coisas a nível pessoal ou mesmo ter de dizer não a projectos que poderiam potencialmente ser extremamente benéficos em termos profissionais para mim… procurei sempre decidir a minha vida pensando no que seria melhor para a minha filhota, se alguma vez me arrependi de não ter aceite um ou outro emprego ou formação longe dela implicando só a poder ver e estar com ela aos fins de semana? NUNCA!

No que diz respeito à educação, és mais ditador, democrático ou anarquista?

Sou extremamente democrático, acredito que a liberdade anda de braço dado com a responsabilidade… como dizia o Rubem Alves, os pais não devem cortar as asas aos filhos mas devem sempre orientar o voo, procuro fazer isso, estar presente, ser apoiante, dialogante… no momento de decidir alguma questão sempre apresentei os meus argumentos e pedi que ela desse a sua perspetiva sobre os assuntos, nunca lhe impôs nada sem que ela percebesse a razão da minha decisão, mas tento não ser demasiado “pai helicóptero” (são aqueles pais que andam sempre em cima dos acontecimentos e acabam por fazer, na maioria das vezes, as coisas pelos filhos o que caso o façam em excesso, não os ajudar a preparar-se para as naturais e incontornáveis dificuldades da vida).

No dia a dia, o que é que te faz saltar a tampa?

Raramente me salta a tampa até porque a Sarita é um miúda impecável, muito meiga e extremamente simpática mas por vezes, nesta fase do “armário”, alguma preguiça no que respeita aos TPC ou o estudo para os testes acaba por me obrigar a ter de ser mais incisivo na minha “orientação do seu voo” 😉

O que é que a tua filha já te ensinou?

A minha filhota, pelas suas características, é uma miúda extremamente especial e possui um olhar muito atento e empático sobre todos os que a rodeiam, sejam estes crianças ou adultos… ensina-me todos os dias a parar, a olhar aos pormenores, a estar atento ao que não é dito mas que tem tanta ou mais importância do que aquilo que é visível e mais evidente, aliás já o nosso Principezinho nos dizia o mesmo, “Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”

Imagina-te avô, qual seria o mais precioso conselho que darias à tua filha?

Quando tiveres dúvidas, pára, escuta-te e segue sempre o teu coração, nem sempre vais acertar mas certamente vais aprender, crescer e assim serás, cada vez mais, feliz.

Enquanto pai, autor dois livros e especialista em Bullying, o que te assusta mais, que a tua filha pudesse ser uma agressora ou uma vítima?

A minha filhota não tem de todo o perfil de agressora mas também não tem de vítima… é, sem dúvida, uma observadora muito atenta e proactiva. Desde que nasceu que a Sarita é muito intuitiva, atenta a tudo o que a rodeia… no nosso primeiro livro, o “Plano Bullying – como apagar o bullying da escola” que editámos em Outubro de 2012, colocámos logo no início um diálogo que acho consegue exemplificar o que estou a dizer… 🙂
“- Pai, conta-me uma história.
– Esta chama-se, “O Pássaro da Alma”. Conheces?
Durante alguns minutos lemos a meias a história.
– Pai, todos temos um pássaro da alma dentro de nós?
– Sim, ele fica…
– Eu sei, triste ou contente… se estivermos assim.
– Sim.
– E fica encolhido quando temos medo que se zanguem com a gente.
– Pois é… é isso mesmo.
(Pausa)
– Na minha turma há um menino que o pássaro da alma está sempre encolhido.
– Como é que sabes?
– Ele está sempre com medo que não gostem dele, que lhe batam… o pássaro deve estar muito encolhido, não achas?
– Deve estar mesmo…”

A Sara é uma participante ativa do teu novo livro, sentes que isso vou tornou ainda mais cúmplices e integrantes da história de vida um do outro?

O novo livro, “Diz Não ao Bullying – Não deixes que te façam mal!” que editámos em 24 de Outubro de 2015 foi escrito por mim e pela Sónia Seixas mas a colaboração da Sarita foi essencial tanto ao nível do tipo de escrita e linguagem, assim como no que respeita às questões realmente relevantes para uma criança da sua idade e uma parte significativa desse trabalho foi a Sarita que realizou e até, reescreveu. Ela é muito participativa e super intuitiva e como tal, percebeu facilmente a dinâmica que pretendíamos com esta história. Há vários anos (cerca de 6 anos) que ela participa comigo em atividades de sensibilização na área do bullying em idade escolar, por exemplo, no 1º ciclo fizemos algumas sessões em conjunto nas suas turmas, como tal, a sua colaboração neste livro foi apenas mais um exemplo da grande cumplicidade e respeito que ambos temos um pelo outro.

De que forma sentes que o projeto Famílias Felizes pode ser útil para as famílias?

Cada vez mais os desafios para as famílias são complexos, tentar aliar uma parentalidade positiva com a pressão de termos todos de ser extraordinários profissionais traz, em determinados momentos, alguma tensão, stress e até culpabilidade, principalmente porque queremos ser, cada vez mais, melhores pais e, na minha opinião, somos sem dúvida, pais mais atentos, mais preocupados, mais interventivos de sempre. O projeto Famílias Felizes é excelente, é como que um “time out” para nos fazer refletir sobre as nossas práticas diárias, algumas tão enraizadas que nos fazem educar, demasiadas vezes, em piloto automático.

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