– Sou grata por tudo aquilo que o cancro também me deu –

Em homenagens a todas as mães que partiram

mas não morreram!

30 de Outubro  dia Nacional da Prevenção do cancro da mama.

Esta é a história da Sílvia, mulher, mãe e profissional, a história da Sílvia será tão semelhante à história de tantas outras mulheres, de tantas outras mães a quem o chão fugiu, que tiveram e têm medo, que tiveram de lutar para amparar os filhos, que tiveram de lutar para se manterem vivas.

Conheci a Sílvia há uns valentes anos atrás, ela foi a minha primeira e única “patroa”, na altura era a Presidente da Instituição em que trabalhei no pós-faculdade 🙂 Sempre a admirei, pela beleza, pela postura, pelo ritmo acelerado em que andava sempre, pela sua justiça e atenção.

Acompanhei a sua história de perto mesmo sem estar presente (as novas tecnologias permitem-nos isso) e pedi-lhe para partilhar connosco a sua história, os seus medos, as suas memórias deste percurso.

O resultado é esta entrevista cheia de alma, de generosidade, de pragmatismo e de optimismo.

“Sou grata por tudo aquilo que o Cancro também me deu” – Sílvia Pedro

 

A família começa…

Era uma vez um rapaz chamado Fernando, giro e com muita pinta que com 26 anos foi jogar futebol para o Clube Futebol Esperança de Lagos. Em Lagos necessitou abrir uma conta bancária e foi nessa altura que conheceu uma miúda, também ela gira, chamada Sílvia. Passados cerca de 3 anos, em 1993, casaram e foram viver para Massamá.
A família cresceu, em 1995 nasceu o Miguel e em 1999 o Tiago.
O Fernando (54 anos) deixou de ter “perninhas” para continuar a ser futebolista e é instrutor de condução, a Sílvia (49 anos) é gerente numa agência bancária, o Miguel (23 anos) abraçou recentemente um novo desafio como comissário de bordo e passa a vida a voar e a sonhar, o Tiago (19 anos) está no segundo ano da faculdade a tirar o curso que queria (Geografia e Planeamento Regional) e está feliz.

 

O Cancro

Em Junho de 2017 o cancro apareceu sem se anunciar, de rompante na minha vida.

Estava a passar férias no meu Algarve e após uma ida à praia, ao passar creme no corpo, apercebi-me de um durãozinho junto ao mamilo.

Já no regresso a Lisboa fui a uma consulta com a médica de clínica geral, prescreveu-me uma mamografia e uma ecografia mamária e no mesmo dia que fiz estes exames, fiz logo a primeira biópsia.
Em Julho foi-me diagnosticado um carcinoma invasivo da mama esquerda com metástase ganglionar. Entre Setembro 2017 e Fevereiro 2018 fiz 8 ciclos de quimioterapia, fui operada no dia 8 de Março (cirurgia conservadora e esvaziamento axilar) e entre Abril e Maio fiz 32 sessões de radioterapia. O “pacote completo”.

Quando nos é dada a notícia, “foge-nos o chão “, confesso que o meu primeiro medo foi pensar como iria dar a notícia aos meus filhos, pensar que os iria preocupar ou causar-lhes dor foi terrível. Dei-lhes a notícia antes de sairmos de casa para o casamento de um sobrinho, no final de Julho. A ideia surgiu de repente, pensei “agora eu não posso borrar a pintura e eles daqui a pouco estarão a festejar um momento muito importante e com pessoas de quem gostam muito, será mais fácil”. Assim foi, correu bem, o casamento do Paulinho foi duplamente importante para mim.
Julgo que consegui o que queria, ou seja, que os meus filhos não sofressem muito com a minha doença, aliás acho até que eles acham que a mãe é uma “super mulher” a quem nada de mal lhe acontece

Nunca me questionei “porquê a mim?”

Não sou mais que ninguém e pode acontecer a qualquer um.

Desde o início que tento encarar a doença da forma mais pragmática e otimista possível, acho que o que tem que ser tem muita força e vou em frente, sempre.
Estive sem trabalhar 13 meses, regressei recentemente, sentia essa necessidade. Apesar de muitos acharem uma loucura, voltei para a rede (agência bancária) e estou a tentar apanhar o comboio em andamento. Numa atividade em que a mudança é constante, num ano mudou tudo….Confesso que tenho receio de não ser capaz mas só o saberei se tentar e é isso que estou a fazer!

O cancro muda-nos, física e psicologicamente.

Quem passa por este processo passa a ver “com outros olhos”, a relativizar mais, a saborear mais, a agradecer,a aproveitar a vida, os momentos (já pensaram no prazer que é sentir o vento na cara ou olhar o mar?), a não dar nada como adquirido…

Sou grata a tudo aquilo que o cancro também me deu. E deu-me tanto!

Não posso deixar de referir a importância da família e dos amigos que ajudam a que esta caminhada seja bem mais fácil.

Felicidade para a vossa família é…

Felicidade em família é acima de tudo partilharmos momentos juntos.

É conseguimos conciliar nem que seja uma semana de férias, viajarmos ou desfrutarmos do meu “paraíso” no Algarve, vê-los jogar futebol na praia ou comermos peixe grelhado no quintal…. Felicidade é saber-nos bem, saber que cada um na “sua vidinha” é feliz e tem saúde. Felicidade é saber que podemos contar uns com os outros.

Quem são os Pedro Martins?

Os Pedro Martins são uma família composta por quatro pessoas muito diferentes. O brincalhão arrumadinho, a resmungona, o cabeça no ar e o companheiro. Muitas vezes não nos suportamos mas quero crer que não passamos uns sem os outros. 

Se a vossa família tivesse um slogan, seria…?

As nossas diferenças também nos unem.

Quais são as vossas principais tradições, hábitos ou rituais enquanto família?

Gostamos muito de confraternizar com amigos e familiares, gostamos de receber, de ter a casa cheia, de conviver.

Nos últimos anos, a festa de Natal costuma ser em nossa casa e juntamos mais de 20 pessoas. Nas férias juntamo-nos na casa de Odiaxere e adoramos idealizar petiscos e iguarias.

Habitualmente ao fim de semana, eu e o Fernando gostámos de ir correr junto ao rio, no passeio marítimo de Algés.

Que mãe procuras ser para os teus filhos?

Sou uma mãe presente (às vezes até demais), acima de tudo quero que os meus filhos saibam que podem sempre contar comigo, que estou sempre “lá”.

Tiago (19),Miguel(23)

No que diz respeito à educação, és mais ditadora, democrática ou anarquista?

Há quem ache que comigo ” vai tudo a toque de caixa” mas por vezes é preciso impor regras, ser firme. Curiosamente acho que há quem consiga “dar-me a volta” facilmente. A minha maior fragilidade e ao mesmo tempo a minha maior força provém dos meus filhos.

É incrível o ascendente que eles têm sobre mim, a minha felicidade e bem estar dependem muito da relação que estabeleço com eles.

Procuro essencialmente ser justa, compreender o seu ponto de vista e “calçar os sapatos deles”. A democracia sempre foi um direito essencial para uma boa e sã convivência.

 

No dia a dia, o que é que te faz saltar a tampa?

Que comam o gelado todo e deixem a caixa vazia no congelador.
O deixa andar! A roupa espalhada nos quartos… Sei que os meus timings são distintos dos timings dos meus filhos mas aquele “já vou” ou “já faço” que demoram uma eternidade tiram-me do sério.

 

O que é que os teus filhos já te ensinaram?

Tanta coisa! É com eles que aprendo todos os dias a ser mãe. Com eles aprendi a não criar expectativas sobre ninguém, a perceber que amar é também “deixar ir”, ” dar espaço”… Com eles conheci um amor incondicional, tão grande, tão grande que chega a doer.

 

Imagina-te avó, qual seria o mais precioso conselho que darias aos teus filhos?

Que façam sempre aquilo que o coração disser, não existem fórmulas exatas ou infalíveis para educar mas se houver amor, é meio caminho andado para dar certo.

 

De que forma sentes que o projeto Famílias Felizes pode ser útil para as famílias?

Famílias Felizes = Projeto Feliz

É um projeto agregador que nos ajuda a refletir naquilo que somos enquanto família, nos nossos medos, nas nossas particularidades, para onde “queremos ir”… Permite-nos conhecer outras realidades, outros testemunhos … É acima de tudo um projeto de partilha, que disponibiliza uma série de ofertas sobre temas tão importantes como a família e a felicidade. Uma família acaba por ser uma equipa com desafios complexos porque sendo uma “Equipa”, nunca pode esquecer a individualidade de cada membro e esse ponto de equilíbrio, muitas vezes não é fácil.

 

Aproveito para deixar um apelo: não descurem a vossa saúde, façam auto palpação e exames regulares, vão ao médico, um diagnóstico atempado faz diferença, depois a atitude, o pensamento positivo e “para a frente é que é caminho”, sempre!

Sílvia Pedro

 

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