O Natal depois de ti – Uma carta aberta…a mim!!

Este ano perdi (fisicamente) o meu pai e como já todos reparámos pelas luzes da cidade, as festas estão ai, o Natal está ai, o tal tempo da família está ai. E ele não.

Este ano será o mais duro até hoje, talvez porque antes dele perdi o meu avô, a minha tia, a mesa vai ficando cada vez mais vazia, o ambiente mais silencioso e a dor não se consegue disfarçar, há um vazio que fica, que fica para sempre e acredito que nem é suposto preenchê-lo, não se supera, aprende-se a viver com ele, ou neste caso, sem ele(s).

Quando meu pai foi diagnosticado com cancro do pulmão, os médicos deram-lhe 6 a 12 meses de vida, aguentou quase 24, só para mostrar

“who was the boss” 🙂

Foi já com esta previsão que o natal passado como todos os outros natais estivemos juntos, desta vez na certeza quase absoluta que seria o último que teríamos para viver.

Foi bom. Agridoce. Há como que uma justiça poética no sentir que um dia não estaremos cá, isso já todos sabemos, mas o sentir dá-nos outra dimensão e perspectiva, permite-nos dizer tudo, fazer mais, sentir mais e dar mais.

Mas saber não te prepara. Permite-te fazer e dizer, dá-te outras oportunidades que não terias se não te dissessem que ele ia partir, mas não te prepara.

Não te prepara para o vazio, para a dor, a saudade, para a raiva, para a perda de encantamento por tantas coisas que ainda estão vivas.

Eu estou neste lugar de dor profunda e de vazio e ainda não percebi se é porque quero cá estar ou porque não consigo sair dele, mas vou-me legitimando, verbalizando que ainda tenho o direito de apenas sobreviver, sobreviver sem ele. Por vezes sinto que sobreviver-lhe é quase uma afronta.

Tenho bons amigos, família, gente que me quer e cuida e que na sua busca de me trazer alguma leveza me recordam que já passaram 9 meses, que está na altura de “arrebitar”, de seguir e todas as vezes que essa referência era feita/é feita, irritava-me/irrita-me, como se me fosse retirado o direito a sentir, como se estivesse a ser dramática na gestão da perda do meu pai, mas a culpa foi minha, faltou explicar-lhes que eu não estou continuamente em luta, a dor, o luto, a saudade, vai indo e vindo, há dias piores, há dias de aceitação, há dias de negação, dias.

Reconstruir tradições não é fácil. Mas vou fazê-lo, honrar o meu pai é a melhor forma de passar este primeiro natal sem ele, celebrar a vida que ele me deu, abraçar-lhe a mãe que lhe sobreviveu, de quem ele era tão “menino”, recordar o quanto a nossa vida foi rica por ele ter feito parte dela e o quanto eu fui e serei feliz, por ele me ter feito sentir o seu “ai jesus”.

Lembrar-me que ele também tinha um feitio do caraças, teimoso, teimoso, teimoso, tendemos a elevar as pessoas quando elas partem, o meu pai era fenomenal, mas era teimoso que nem uma porta e isso por vezes deixava-nos loucas ( a mim e à minha irmã), as suas crenças eram verdades quase absolutas e acabávamos esgotadas , a encolher os ombros e a revirar olhos sempre que desistíamos de o tentar trazer para a nossa verdade.

E a única verdade que tínhamos em comum, era o nosso amor.

A aceitação. A tolerância. A segurança. A dádiva de nos termos.

Feliz Natal mana, amo-te.

Feliz Natal Papá. Sou-te.

 

Feliz Natal!! 

Cristina Nogueira da Fonseca

 

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