Casal, Arquiteto da Família.

 

O Casal, o Arquiteto da Família.

Em tempos estranhos como este que vivemos, as siglas A.C. e D.C. poderão ter ganho novo significado.

Será a vida Antes da Covid assim tão diferente da vida Depois da Covid? Estaremos perante uma nova era cronológica?

Se por um lado aspiramos o regresso à normalidade como a conhecemos, na expectativa de podermos resgatar a vida que vivíamos, por outro, acreditamos que nada voltará ao que era.

Talvez por defeito ou efeito de profissão, questiono-me sobre qual será o futuro das relações, tendo como pano de fundo a incerteza sanitária, económica e social? Penso nas relações com a comunidade em geral e, fazendo um zoom, nas relações familiares em concreto. Quererão as pessoas regressar à normalidade ou essa normalidade era um sítio onde já não queriam estar?

O que estamos a viver impacta em todo o tipo de relações. Fico suspensa no casal, o qual vejo como arquiteto da família e, ao mesmo tempo, como o seu futuro. É da relação de casal que mais se espera segurança afectiva, é uma relação feita de inter-independência, é a impressão digital a dois dedos.

O isolamento imperativo está a ser a prova de fogo de muitos casais. É de esperar que a pressão aumente perante a ausência dos balões de oxigénio a que estávamos habituados. Temos à espreita um inimigo invisível, desconhecido e inesperado, o que potencia medo e ansiedade inerentes a esta nova realidade.

Nestas circunstâncias, sustentar uma relação saudável e à prova de bala não é pêra doce. Alguns casais irão deparar-se com questões antigas, incontornáveis em isolamento; outros sentir-se-ão derrubados por novos problemas, decorrentes da incerteza. Mas todos enfrentam uma proximidade imposta que amplifica aquelas que já eram as características da relação, o que pode ser reparador, ou nem tanto.

A condição em que se encontrava a relação antes da pandemia determinará quanto o confinamento afectará a relação; a convivência ininterrupta acentuará as (in)conformidades da relação, o que quer dizer que, por via da Covid-19 ou através de outro precipitante qualquer, os casais irão dimensionar a crise à sua conta e medida. Uma coisa é certa: não se devem tomar decisões importantes numa altura de crise, nem encará-las como definitivas! As crises não duram para sempre e devemos tentar adaptar-nos, conter emoções, reposicionarmo-nos para nos conseguirmos organizar.

Mas vamos com calma… Apesar da incerteza do momento que vivemos e do reflexo que terá nas relações, não podemos querer traçar um plano que nos dê garantias que o próprio momento não pode dar. É preciso perceber que algumas discussões podem ser fruto da ocasião e devemos aceitar que não há problema em não nos sentirmos bem, é normal que a perda de liberdade intensifique sentimentos menos positivos.

Costumo olhar para o copo meio cheio e prefiro dizer o que gostava que acontecesse do que tecer antecipações acerca do que pode acontecer. Acredito que haja relações que sairão disto mais fortes, não apenas por declarações de casais que testemunham que se sentem mais unidos após eventos de vida difíceis, mas porque aproveitaram a oportunidade para se reinventarem e confirmarem que as escolhas que em tempos fizeram, foram as certas.

É também tempo para descobrirem os seus próprios recursos, os quais muitas vezes não identificam ter e que em situações como esta são trazidos à superfície. Gosto de pensar que as pessoas vão utilizar este tempo para reflectirem sobre elas próprias, sobre as relações e sobre a forma como estes recursos podem ser transformadores e potenciadores de mudança, não só neste momento, mas também daqui para a frente.

Não há receitas infalíveis, depende muito das mãos que se põem na massa. Os truques que funcionam numa casa podem não funcionar noutra.

Mas partilho convosco os ingredientes que fazemos por consumir cá em casa para fortalecer o sistema imunitário da nossa relação:

  1. Arranjamos tempo para conversar e os assuntos não versam apenas sobre a Covid-19 – falamos sobre projetos individuais, vontades comuns e sonhamos em voz alta;

  2. Pronunciamo-nos sobre o que sentimos de forma construtiva, mesmo quando perdemos a verticalidade ao nos entregarmos ao medo que temos do futuro;

  3. Evitamos julgamentos – criamos um espaço seguro, onde podemos partilhar e expressar sentimentos e pensamentos;

  4. Conversamos sobre o que nos incomoda e tentamos fazê-lo de forma clara. Quando começamos a “desconversar” (lá calha), reservamos um tempo para nos remetermos ao silêncio e à auto-regulação;

  5. Consideramos que somos uma boa equipa e, tal como no desporto, isso alivia a tensão e promove estabilidade e cumplicidade;

  6. Fazemos por ser tolerantes e bons ouvintes (às vezes não dá) e tentamos genuinamente calçar os sapatos um do outro – privilegiamos a empatia ao acolher inquietações, validando o que faz falta. Só assim conseguimos ser auto-compassivos, reconhecer que não somos perfeitos, que estamos a dar o nosso melhor e que é natural cometermos erros;

  7. Pedimos desculpa um ao outro, de forma altruísta e protetora, e não perpetuamos discussões inférteis apenas para mostrar quem tem razão;

  8. Defendemos a distância de segurança e já a cumpríamos A.C.respeitamos e incentivamos o espaço livre de cada um, o que nos permite preservar a individualidade, o auto-cuidado, os interesses e acrescentar novidades à relação;

  9. À boleia de alguns rituais que temos com as nossas filhas, aproveitamos para nos reconectarmos, ligando-nos através de histórias familiares, de música, de jogos de tabuleiro ou construções improvisadas;

  10. Apesar de alguma ansiedade provocada pelo elevado contágio deste vírus, conservamos gestos e afectos que indicam ao outro a intenção de proximidade e intimidade;

  11. Descobrimos que somos trapezistas! Acumulamos funções, sem cair do trapézio, mas ao nosso ritmo, porque o importante é chegar ao destino com equilíbrio;

  12. Recorremos frequentemente ao contacto com familiares e amigos que agora não podemos abraçar;

  13. Evitamos ter uma visão catastrófica do presente e do futuro e tentamos encarar esta adversidade como uma oportunidade de aprendizagem, pontuando os ganhos deste desafio;

  14. Somos capazes de reconhecer, apreciar e dizer ao outro aquilo que corre bem; quando não corre, aguentamos o que cada um tem para dizer e ouvir;

  15. Optamos por olhar para a vida em perspectiva e apostamos no sentido de humor, na fé, na gratidão e na esperança como lentes orientadoras do caminho que se segue.

Se parte destes princípios forem seguidos, os casais passam na prova de fogo e podem sair desta crise fortalecidos, porque aprenderam e superaram juntos mais uma etapa de crescimento da relação.

Este é o grande desafio: termos tempo e coragem para respirar fundo e refletir sobre o que é relevante agora, o que podemos deixar para depois e o que podemos reter desta experiência.

Somos feitos de enlaces, de relações, de nós. O amor sobrevive e fortalece-se, porque o que não nos mata torna-nos mais fortes.

Marta Pimentel Martins  – Psicóloga – Terapeuta de Casal  | Happytowner 

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