Esta nova espécie, pai-polvo, mãe-polvo.

Se há coisa que pode destabilizar a produtividade e o rendimento no trabalho é uma secretária desarrumada. Papéis e post it’s por todo o lado, canetas de várias cores espalhadas, a borracha que teima sempre em desaparecer quando mais faz falta; uma sensação de imensidão que demora a ter fim.

Em circunstâncias “normais”,  poderíamos fechar a porta do escritório e jurar que “amanhã é que vai ser”, que vamos pôr ordem naquilo tudo e marcar todos os check no plano de trabalho criado.

Seguiríamos para a escola ou para o ATL, onde os miúdos estariam à nossa espera já com o lanche comido e os trabalhos de casa feitos. Íamos para casa, organizar banhos, fazer o jantar, conversar sobre as brincadeiras do recreio e preparar o dia seguinte, é dia de natação o saco tem de ficar à porta caso contrário ficará esquecido. Chega a hora de lavar os dentes e deitar, o “só mais 5 minutos” é o argumento perfeito para prolongar o dia, porém voz de mãe/pai é soberana “é agora porque  quem manda sou eu e amanhã tens de te levantar cedo para ir para a escola”.

Em dias “normais” a distinção de papeis que representamos na nossa vida é clara e organizada. Há alturas para ser pai/mãe, filho, amigo, colega ou educador; e mesmo parecendo difícil, conseguimos dar conta do recado. Fazemo-lo quase que inconscientemente.

O problema é que devido à pandemia nem os dias são normais, nem a secretária está arrumada, e vemos o trabalho de todas as frentes a ficar prejudicado. A migração do trabalho/escola para zonas que outrora foram de lazer, o computador, tablet ou telemóvel passou a ser “nosso”, a internet que agora demora uma eternidade para carregar a plataforma das aulas síncronas, os tinteiros da impressora já começam a dar sinal… Além da mesa da sala, agora também a agenda está desarrumada: reuniões de trabalho, reuniões com professores, reuniões com educadores, aulas em zoom, aulas na escola virtual, aulas na televisão… A matemática nunca foi o nosso forte, a físico-química que parece hebraico, os professores que enviam emails devido aos trabalhos em falta… Até a panela da sopa às vezes parece estar do contra!

No meio disto tudo, onde é que os pais ficam? À beira de um ataque de nervos certamente, porque tudo o resto ganhou outra prioridade. Isso reflete-se no trabalho, na impaciência, na dificuldade de resolver problemas básicos.

Não vou dizer para terem calma (já o disse noutro post); vou-vos dar lembretes para se organizarem a nível pessoal e profissional:

Foco. Procurem manter objetivos diários simples e realistas; de que serve ter uma to do list com 8 objetivos se provavelmente só conseguiremos atingir 3? Há imprevistos, emergências e contratempos que nos trocam as voltas num ápice. A frustração de olhar para a lista e não ter a sensação de “missão cumprida” desmotiva e dá-nos uma sensação de fracasso.

Equilíbrio. Mantenham as folgas semanais, reservem um ou dois dias para pensar em tudo menos no trabalho. As tarefas domésticas acumulam? É difícil ganhar a colaboração dos miúdos? Façam um jogo: cada pessoa tem duas ou três tarefas destinadas, que deve concluir num determinado período. Se ajudar, ponham música, a tarefa deve estar concluída quando a mesma terminar. Em tarefas mais longas escolham uma playlist divertida e deixem-se levar. Podem criar uma recompensa (por exemplo: quem “ganhar o jogo” poderá escolher um jantar especial de sábado ou domingo à noite). Lembrem-se que mais do que perfeito, é importante que fique feito. O treino e a repetição levam à excelência.

Locus de controlo. Diz respeito à expetativa que têm sobre algo. Assumam que há coisas que não conseguem controlar e que o tempo não é infinito. Vamos priorizar tarefas, avaliando  prós e contras; será que temos mesmo de fazer todas as atividades da teleescola, em simultâneo com as aulas síncronas? O que é mais relevante? Há complementaridade? O facto de haver tantos recursos dispersa a atenção e dá-nos a sensação de estarmos assoberbados.

Identidade. Nestes espaços de tempo, não toquem no telemóvel nem no computador. Não se deixem influenciar por email’s importantes, notícias negativas ou publicações demasiado positivas. Há quanto tempo é que não fazem anda por e para vocês próprios? Se o tempo ideal for de manhã, façam o vosso pequeno almoço preferido, por exemplo; se for à noite construam o vosso ritual de abrandamento. Trabalhem em algo que vos encha o ego.

Zelo. Uma das coisas que mais influencia o nosso bem-estar é a qualidade dos pensamentos. Revejam que tipos de comportamentos têm tido, especialmente em momentos mais tensos. Já deram por vocês a questionar a vossa capacidade de resolver problemas? Revoltem-se contra vocês próprios e mudem as questões e afirmações que surgem na vossa cabeça. Experimentem começar o dia a dizer para vocês próprios começadas por “eu sou”, numa vertente positiva.

Espero que com isto o vosso dia a dia seja (ainda) mais feliz. Antes de dormir se lembrem que estão a dar o vosso melhor.

O amor basta para que, mais que alunos de excelência e sucesso, eles sejam o melhor ser humano possível.

 

Leila Costa – Psicóloga Clínica | Happytowner 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.